Renascida
Duas coisas na vida sempre me chamaram a atenção: a ave grega mitológica Fênix e o significado de meu nome. Eu estava na quarta série do Ensino Fundamental, atualmente quinto ano, quando, em uma aula sobre mitologia, a professora nos contou o poder da Fênix que após morrer entrava em combustão virando cinzas e passado algum tempo essas cinzas se regeneravam tornando aquela ave uma nova criatura. Foi nessa mesma época que descobri o significado do meu nome: Recomeço, renascimento. Me chamo Renata e gostaria de contar para vocês como esses dois símbolos sempre se fizeram presente em minha vida e o modo que entendi a poesia e a tragédia por trás deles.
Puxei o capuz do fino casaco preto que vestia sobre a cabeça quando a garoa começou a cair tímida e fina sobre mim. Ajeitei a mochila nas costas e a bolsa que trazia pendurada no braço com cuidado para não despertar Otávio que agora dormia serenamente. Arrumei a manta grossa sobre seu corpo pequeno e quente para que, pelo menos, ele não ficasse todo molhado e não pegasse um resfriado. Quem olhasse de fora poderia julgar que aquela era uma atitude irresponsável e mal pensada, mas eu sabia que não era. Aquele era meu despertar e meu suspiro de esperança. Senti lágrimas escorrerem em meu rosto quando mais uma vez me dei conta daquela situação, porém eu não pretendia voltar arrás; meu filho não cresceria com aquele exemplo dentro de casa. Eu faria tudo por ele, mesmo que meu coração doesse e eu estivesse com medo, sabia que era a escolha certa.
O caminho estava escuro e piorava mais por causa da neblina que encobria a lua. Eu morava em um vilarejo com cerca de cinquenta propriedades de diferentes famílias. Uma dessas era de meu pai que havia dividido o terreno por igual para meus quatro irmãos. Éramos um total de nove filhos: quatro homens e cinco mulheres, mas o terreno só fora dividido por eles pois nós, mulheres, saíamos de casa quando casávamos. Eu era a filha mais nova. Minhas irmãs também viviam por perto. Na cultura de nossa sociedade as mulheres eram educadas para o trabalho doméstico e o casamento desde cedo, não foi diferente comigo. Era comum as mulheres apenas estudarem para que pudessem aprender a assinar o nome e o sobrenome, ler coisas básicas e na idade em que deveríamos estar no ensino médio ficávamos restrita as nossas casas aprendendo a costurar, cozinhar e outras coisas. O número de mulheres que chegava ao segundo ciclo do ensino fundamental era pouco e ficava pior quando se tratava do ensino médio. Eu não aceitava isso. Por pura teimosia fui até o final dos meus estudos e dizia a todos que seria escritora quando crescesse. Vi meu pai culpar minha mãe por minha aparente rebeldia, porém eu não o julgava por isso. Na mente dele mulher só servia mesmo para ser serva do marido e procriar. Ele não estava certo, só que como ele saberia disso?
Quando terminei meus estudos básicos não vi mais perspectiva. Meus pais eram pobres e sempre me lembravam que esse negócio de estudar era "coisa de rico". Eu deveria me dar por satisfeita de ter chegado até onde cheguei e mesmo que eu não quisesse aceitar isso, não haviam muitas opções: o vilarejo era longe da cidade e o transporte público era quase inexistente. Eu deveria fazer um esforço sobre-humano para chegar pelo menos na rodovia e pedir uma carona. Resolvi que esse era um daqueles sonhos que precisaria ser esquecido. Foi nesse período que Jeremias chegou as redondezas. Herdeiro da família Santiago, foi mandado para a enorme casa verde que ficava sempre fechada afim de cuidar da propriedade e do mercadinho deles que ficava na cidade vizinha mais próxima. Sem dúvidas ele era o sonho de todas as garotas que tinham mais ou menos a minha idade: bem-sucedido, de boa aparência, com inúmeros pedaços de terra, um mercado e disposto a casar. Possuía uma pele parda, cabelos e olhos muito negros; era alto, forte e sempre andava bem vestido.
Logo que meus pais o conheceram trataram de investir para se tornarem próximos. Eu era a única filha que ainda não havia se casado e eles morriam de medo de que ninguém viesse a se interessar por mim unicamente pelo meu jeito "rebelde" de ser. Quando Jeremias pegou intimidade com meu pai e disse de seu interesse eles trataram de marcar para nos conhecermos. Na época eu tinha dezoito anos e ele trinta e cinco. Em pouco tempo surgiu a proposta de casamento e por mais que eu me recusasse, eles me obrigaram dizendo que era a sorte grande e que eu deveria ser agradecida por um homem me querer já que eu tinha "um temperamento totalmente insubordinado". Nos casamos dali há poucas semanas numa cerimônia simples na capela do vilarejo. Todos estavam presentes e foi a festa mais falada por meses.
As primeiras semanas foram ótimas apesar de ele já mostrar seus defeitos de caráter. Ele cuidava das minhas necessidades financeiras enquanto eu apenas precisava apenas cumprir meu papel conjugal e cuidar da casa. Não posso dizer se eu estava feliz ou triste naquele momento pois eu não sentia nada. Só pensava que aquilo estava certo. Ouvia das minhas amigas, vizinhas, irmãs e até da minha mãe que isso era normal, elas diziam que me acostumaria com aquilo e que o amor viria com o tempo. Eu achava difícil, principalmente quando Jeremias se estressava com algo e fazia questão de lembrar que eu não era muita coisa na vida e dependia dele. No fim das contas ele estava certo. Eu não aprendi bordado, confeitaria, costura e nem nenhuma das atividades das mulheres do vilarejo. Eu sabia ler, escrevia histórias e poemas como ninguém, mas só isso. Ele sempre me dava um trocado para eu não ficar sem recurso, porém não era por causa do meu esforço e por isso eu era uma inútil para ele e para minha família. Quando nos casamos ele não permitiu que eu trouxesse os meus livros pois dizia que eles eram lixos desnecessários, então meus dias apenas passavam mórbidos e nada emocionantes.
A primeira surra veio após um mês de casamento. Mesmo depois de tanto tempo ainda me lembro da sensação como se estivesse acontecendo agora. Jeremias saiu com alguns amigos após o expediente para uma partida de futebol chegando quando já era madrugada. A comida estava sobre o fogão, mas àquela altura já estava fria. Eu a havia preparado cedo achando que ele retornaria para casa, deitei para descansar e espera-lo para comermos juntos, porém acabei dormindo profundamente. A primeira coisa que senti foi uma dor ardente e forte no coro cabeludo então todo meu corpo se chocou contra o chão. Despertei ainda atordoada e assustada e senti o primeiro golpe contra meu rosto. Ele bateu minha cabeça contra o chão, socou meus olhos, minha boca chutou meu estômago. Quando cansou, segurou meu pescoço fazendo-me ficar em pé. Eu ainda conseguia respirar, mas com muita dificuldade. Aproximou o rosto do meu e eu senti o forte odor de álcool vindo dele. Deu um sorriso diabólico e disse:
— Eu já cansei de você. O povo dizia que você era teimosa e inútil, mas vai aprender a ser mulher eu já te dou coisa demais para você não cuidar nem de esquentar minha comida.
— Você não avisou que ficaria fora. — Respondi com dificuldade e rouca: — Eu estava cansada e acabei com sono.
— Cala a boca! — Ele gritou balançando meu pescoço para frente e para trás: — Não tem que estar cansada porque você não faz nada! Você é uma preguiçosa, mas pode deixar que vai aprender a ser mulher seja por bem ou por mal.
Quando me soltou meu corpo caiu para trás. Me encolhi como uma criança amedrontada e puxei a alça arrebentada da minha camisa aproveitando para ajeitar a roupa que estava toda torta. Me rosto ardia, sangue escorria pelos cantos da minha boca enquanto todo meu maxilar parecia anestesiado de tanta dor. Com certeza ficaria muito inchado e feio na manhã seguinte. Escondi a cabeça entre os joelhos e chorei baixinho. As lágrimas faziam as feridas abertas arderem ainda mais. Pensava que nada pudesse piorar, mas podia! Jeremias voltou e enrolou meus cabelos em sua mão fazendo-me levantar a cabeça. Entrei em desespero ao ver que ele estava com uma faca na mão. Minha respiração se tornou diferente e eu implorei:
— Por favor, Jeremias. Não faz isso! Você vai se arrepender.
— Cala a boca! — Ele berrou: — Já falei que você vai aprender por bem ou por mal!
Fechei os olhos quando o vi levantar a faca. Com certeza eu morreria. Lembrei de todos os sonhos que eu ainda tinha. Ele apagaria meus sonhos. A pressão em minha cabeça se intensificou e eu esperei a ferida mortal, só que o que veio foi um intenso relaxamento em meu couro cabeludo e uma cascata suave ao redor do meu corpo. O silêncio ao nosso redor fez tudo ficar estático por um tempo, abri os olhos com receio do que poderia ver e só então me dei conta da crueldade do que acabara de acontecer. Meus longos cabelos castanhos, que eu tanto amava e eram minha marca registrada, repousavam ao meu redor. Passei a mão na cabeça percebendo que ele havia cortado acima da altura do ombro. Meu marido saiu do quarto enquanto permaneci sentada no mesmo local. Ele retornou. Deitou. Dormiu. Enquanto eu passei a noite em claro. As lágrimas involuntariamente saiam de meus olhos e eu só conseguia olhar fixamente para o outro lado do quarto. Se ele tivesse me ferido de morte talvez estivesse doendo menos. A centelha de vida que eu imaginava ainda ter se apagou de vez e naquela noite escura eu soube que meu destino estava traçado, minha vida havia acabado. Eu me reduzi às cinzas.
Conforme o tempo foi passando tudo piorou. Jeremias se mostrava cada vez mais agressivo. Agora não apenas agressões físicas, mas também sexuais. Procurei ajuda de meus familiares que disseram apenas que eu precisava obedecer a meu marido, ser mais respeitosa, menos preguiçosa e ficaria tudo bem. Numa das surras, quando ele fez minha têmpora abrir resultando em sete pontos de sutura, fui até a delegacia na tentativa de realizar um Boletim de Ocorrência pois talvez isso pudesse acalmá-lo. Recebi um passo a fora do delegado e uma surra do meu marido por ter ido a delegacia reclamar da forma como ele "me educava". Comecei a acostumar minha mente que precisava ter calma com Jeremias e passei a fazer tudo estritamente como ele exigia. Compreendi que tinha que sofrer calada e procurar meios de tornar aquela experiência menos traumática possível. Eu não tinha para onde ir e nitidamente ninguém poderia me ajudar.
As coisas começaram a melhorar quando descobri da gravidez. Estávamos juntos há quase seis meses quando passei mal, era dia do meu aniversário e eu conversava com meus familiares na sala de estar da minha casa. Desmaiei e quando acordei já estava no pronto socorro do vilarejo. Jeremias chegou após algum tempo e o médico solicitou que ele entrasse quando os resultados do exame ficaram prontos. A notícia pegou a todos de surpresa meus familiares e meu marido se cumprimentavam na sala de espera enquanto eu apenas sorria incrédula. Naquela noite ele prometeu mudar e pela primeira vez na vida vi meu marido ser carinhoso. Passamos a dormir juntos todas as noites já que havia parado de beber e não saía mais para as partidas de futebol. Via-o empolgado comprando roupas para o bebê bem como toda a mobília para o quartinho dele. Meu marido me acompanhava nas consultas e ficou radiante quando descobriu que teríamos um menino. Fez questão de fazer uma festa para contar para todos. Por um momento achei que os outros estivessem certos quando diziam que o amor viria com um tempo. Talvez eu realmente estivesse começando a amar meu marido. Nós estávamos felizes e enfim parecíamos o casal que eu sempre sonhei. Íamos para todos os lugares juntos, eu participava das escolhas e ele até me deixou escolher entre os nomes que ele havia selecionado. Entramos em acordo que Otávio seria uma linda homenagem para o pai dele, Sr. Otávio Santiago, que falecera meses antes.
Essa maré de tranquilidade não durou muito. Nosso filho nasceu e poucas semanas após Jeremias voltou a ser o homem tirânico que era antes. O amor que eu julgava sentir se esvaiu como água da chuva escorrendo pelos canos e então percebi que eu estava enganada. Sua atenção confundiu meus sentidos que já se mostravam muito carentes de afeto. Pelo menos agora eu tinha a quem me devotar. Meu filho passou a ser meu escape. Eu passava dia e noite cuidando para que ele tivesse boa saúde e crescesse saudável e forte. Com toda certeza eu faria o possível e o impossível para que ele fosse um homem extraordinário e ninguém me impediria de fazer isso. Meu marido chegava altas horas da madrugada, as vezes me agredia, mas eu não pensava em desistir. Os dias passaram e então chegamos aquela fatídica noite. Até então tudo parecia estagnado no tempo. Tudo ainda era cinzas quando uma fina chama me fez lembrar que mesmo que não parecesse, eu ainda estava viva.
Eu estava na cozinha terminando de preparar o jantar de Jeremias e a sopinha de Otávio. Ele estava começando a comer legumes e frutas e não era uma criança difícil para alimentar. A enfermeira e a pediatra me orientaram que as melhores comidas para essa fase inicial eram os naturais o que não era difícil de seguir já que os alimentos da feira eram majoritariamente cultivados por muitos dos nossos colegas do vilarejo. Meu menino estava cada dia mais bonito, saudável e a médica não parava de elogiar o cuidado que eu tinha com ele. As mulheres da vizinhança tratavam com descrença a julgar pela minha fama e diziam que não era daquele jeito que se cuidava de menino. Diziam que ele cresceria mimado e cheio de manias, mas minha consciência estava limpa pois eu sabia que ele estava indo bem. Ele se tornaria um ser humano excelente. Apaguei o fogo quando vi que já estava tudo pronto, separei as sopinhas em potes esterilizados deixando apenas uma parte para que Otávio consumisse na janta, lavei os últimos utensílios que estavam dentro da pia e me dirigi para tomar um banho já que ele ainda não havia despertado. Antes de chegar a porta do banheiro, porém, ouvi uma forte pancada na porta. Olhei para trás e em três passos largos Jeremias já estava ao meu lado segurando meu braço com força. A julgar pelo seu hálito e pela forma como o seu olhar estava fixado ele havia bebido mais uma vez. Otávio começou a chorar no berço e tentei puxar meu braço das mãos dele que me machucavam.
— Otávio está chorando! — Eu disse tentando me afastar dele: —Deixa-me ir cuidar dele.
— Deixa o menino chorar. — Ele disse: — Faz bem para o pulmão. Você está muito rebelde e fazem dias que não temos nada. Você é minha mulher então vamos acabar logo com isso.
Ele então segurou meu braço com mais força e saiu por me arrastar até o nosso quarto que ficava no lado oposto de onde meu filho estava. Toda a história da minha vida passou por minha cabeça como um filme. Eu não sabia em que momento deixara de ser aquela jovem cheia de sonhos que queria ser diferente para me tornar uma mulher que se contentava com o pouco. Se contentava com surras, abusos e todas as outras coisas horríveis que aquele homem me dava. Atitudes drásticas me fariam perder muita coisa, mas ao mesmo tempo, que espécie de mulher eu seria se não lutasse pelo pouco de dignidade que ainda me restava? Fato é que as grandes mulheres que sempre me inspiraram precisaram fugir do comum e dar o primeiro passo. Quando este não deu certo elas deram o segundo. Se ninguém me ajudou, eu precisaria seguir sozinha. Chegando no quarto, Jeremias me agarrou em seus braços fortes e começou a depositar beijos em meu pescoço. Eu me sentia suja naquele momento. Suja por estar vivendo aquilo por livre e espontânea vontade. Decidi que naquela noite não me entregaria facilmente. Me debati em seus braços arranhando-os e ele os segurou com força:
— O que você pensa que está fazendo, Renata? — Ele perguntou apertando meus pulsos.
— Você vai quebrar meu braço! — Eu disse sentindo uma dor torturante em meus pulsos: — Você não tem o direito de fazer o que bem entender comigo. Quem você pensa que é?
Ele riu de forma irônica e disse:
— Quem eu penso que sou? Sou seu marido e faço o que bem entender com você!
Ele não desistiria de consumar o ato, eu muito menos de me livrar daquela situação. Soltando meus braços ele enrolou as mãos em meu cabelo fazendo questão de desferir alguns golpes com a mão solta contra meu rosto e me arrastou para a cama. Quando chegamos próximo ele permaneceu me segurando firme. Apesar da dor latente que fazia meus olhos lacrimejarem, eu permanecia me rebatendo contra ele. Ele me surrou mais uma vez e com isso lembrei de todos os infernos que ele já me havia feito experimentar e não aceitaria que tudo acontecesse de novo. As janelas de madeira abriam e fechavam batendo por causa da ventania lá de fora e meu filho ainda chorava na sala. O barulho era confuso. Tudo parecia me dar forças para reviver. Uma forte luz atravessou a janela do quarto e em poucos segundos um trovão forte e audível foi presenciado. Jeremias não vira a luz, então acabou se assustando e soltando meu cabelo. Aproveitei o momento de distração e o empurrei. Ele acabou caindo para trás, sua cabeça bateu contra o chão e ele apagou. Corri descrente e com medo de ter feito-lhe algum dano a vida. Apesar de ser um homem visivelmente mal, mata-lo não era a solução. Eu não seria uma assassina. Violência nunca se pagaria com mais violência. Me aproximei de seu corpo e notei que ele ainda respirava. O vento pareceu se acalmar pois as janelas pararam de bater. Chegando mais perto senti a respiração leve e quente sair de sua boca e não evitei o choro. Olhando-o deitado lembrei de que ele poderia ser um homem incrível e de grande potencial se quisesse, mas acontece que ele não queria. Ousei tocar-lhe o rosto. O grito de pranto do meu filho me tirou daquele momento e então entendi que era hora de agir.
Primeiro corri para pegá-lo a fim de acalmá-lo. Juntei duas mudas de roupa e meus documentos e enfiei em uma mochila. A bolsa de Otávio já ficava preparada para o caso de alguma emergência, então apenas completei com fralda, algumas mamadeiras e alguns potinhos de sopa que eu já havia separado minutos antes. Troquei rapidamente a roupa de meu filho e a minha, enrolei-o em várias mantas, peguei o dinheiro que meu marido sempre me dava e saí. Dei uma última olhada para trás. Jeremias respirava. Aparentemente estava apenas inconsciente e logo acordaria. Minha casa era bonita, grande e confortável, mas nem o maior conforto do mundo valia a minha paz. Recolhi a chave dele e a minha, me apressei trancando a porta antes de sair pois isso me faria ganhar tempo. Joguei-a em um canto qualquer no quintal e rumei ao desconhecido. Pensei em passar na casa dos meus pais, mas meus pais não concordariam em me ajudar a fugir e eu acabaria por ter que retornar para o inferno. A noite estava sem luz pois ameaçava chover, porém eu não desistiria. Planejei que quando eu estivesse devidamente abrigada entraria em contato com minha família apenas para lhes dizer que estava tudo bem.
A chuva que antes era fina agora já estava mais pesada e cada gota que caía contra minha pele fazia com que as pequenas feridas abertas ardessem. Já haviam se passado muitos minutos desde que eu havia chegado ao ponto de ônibus da rodovia deserta. Fiz sinal para alguns carros pedindo carona, mas eles não pararam. Alguns ônibus também passaram em alta velocidade e sequer me enxergaram ali. Otávio, que viera dormindo desde casa, agora estava acordado, mas quietinho como se entendesse que precisava cooperar para sairmos daquela situação. Um camião grande passou e também não parou. De súbito avistei uma sombra escura e cambaleante se aproximando do outro lado da via. Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram pois eu sabia de quem se tratava. Entrei em desespero. Com certeza ele estava ali para me arrastar de volta para casa e dessa vez me mataria. A frota de carros pareceu ter se intensificado e a chuva ficou mais forte. Eu e meu bebê já estávamos encharcados. Jeremias se aproximou do meio fio. Apenas os carros e cinco metros de pista o separavam de mim. A lanterna dos carros iluminou seu semblante que estava transtornado e diabólico. Ele berrou:
— Você pensou que ia tentar me matar e depois ia fugir assim? Quando eu colocar minhas mãos em você, você vai se arrepender.
Ao ouvir a voz do pai Otávio se agitou e começou a chorar desesperadamente. Tentei ignorar e acalmar meu filho enquanto acenava mais freneticamente para os veículos que passavam por ali. A chuva e os trovões cada vez mais fortes caiam sobre nós e eu já não sabia mais diferenciar o que era água da chuva e o que eram nossas lágrimas, mas eu não permitiria que aquela chama de esperança se apagasse. Eu lutaria até o fim. Se ele conseguisse me levar de volta e conseguisse fazer as atrocidades que ele pretendia eu pelo menos teria a consciência limpa de ter tentado. Os acontecimentos a seguir vieram muito rápidos e eu só os entendi após um tempo. Vi Jeremias ameaçar atravessar e um carro cruzou sua frente fazendo com que ele se assustasse e caísse para trás. Nesse mesmo momento um ônibus enorme de viagem parou e abriu a porta. O motorista simpático sorriu para mim e disse em voz alta:
— Tudo bem senhorita?
No letreiro uma placa dizia "Destino: Curitiba". Olhei de relance e do outro lado da rua Jeremias se levantava para tentar atravessar mais uma vez. Subi às pressas a escada e comecei a falar:
— Moço! Pelo amor de Deus. Me tira daqui! Aquele homem quer matar a mim e ao meu filho. Está vendo meu olho roxo? Ele quem fez isso.
O motorista olhou para o lado e ao ver Jeremias atravessando a rua entendeu. Fechou a porta do ônibus e ligou o motor a sair dali às pressas. A última coisa que vi foi um carro vir desgovernado e se chocar contra o corpo de Jeremias que corria alucinadamente no meio da rodovia para chegar ao ônibus. Fechei os olhos e soltei um soluço engasgado que trazia na garganta.
Uma senhora veio da parte traseira do ônibus enquanto a luz do salão se acendeu.
— Você está machucada. — Ela disse: — Você está bem? O bebê está bem? Venha que vamos ajudar você.
Ao entrar no corredor vi que outras pessoas estavam ali dentro. Eram poucas pessoas, mas parecia um público bem seleto. Sentei-me no primeiro conjunto de bancos e sentei Otávio sobre meu colo. Quando me dei conta do que havia acabado de acontecer só consegui abraçar meu filho e chorar mais uma vez só que dessa vez era um choro de felicidade. Enfim eu estava livre. A senhora sentou-se ao meu lado e me envolveu em um abraço. Quando enfim me acalmei ela, e outras pessoas dali se ofereceram para me ajudar dando-me água para beber, trocando a roupinha molhada de meu filho e me deram roupas limpas. Quando tudo já estava calmo o motorista desligou a luz interna do salão, todos voltaram a seus lugares, se acalmaram e dormiram. A senhora que primeiro me prestou ajuda, porém, não saiu do meu lado.
— Eu me chamo Cátia. Como se chama esse neném lindo? - Ela perguntou sussurrando
— Otávio. — Eu respondi: — O nome dele é Otávio.
— Nossa! Que nome lindo! E seu nome?
Ela sorria de forma suave.
— Me chamo Renata.
— Renascida!
— O que? — Perguntei pois não havia entendido o que ela havia dito.
— Renascida! É o significado do seu nome.
Eu apenas sorri e concordei. Otávio dormiu serenamente durante a viagem. Dona Cátia me contou que ela e seu Marido, Joaquim, eram os organizadores daquela viagem e que estavam voltando para casa. Prometi pagar pela viagem quando descêssemos e eles concordaram. Quando contei de toda história que havia presenciado até ali ela ficou impressionada e se comprometeu a me ajudar a ter um recomeço. Enquanto o ônibus seguia rumo ao seu destino eu não podia evitar de pensar naquela ave mitológica que me impressionava: a Fênix. Eu sabia que era hora de reviver. Não foi à toa que aquela ínfima chama de esperança se reacendeu e agora queimava cada vez mais conforme meu passado ia ficando para trás. Eu estava nascendo novamente e poderia fazer tudo diferente por mim e pela vida que repousava em meus braços sereno.
Chegamos a rodoviária de Curitiba dali a dois dias. Fiquei impressionada com aquele lugar já que nunca havia saído do vilarejo. Tinham muitos carros, muitas pessoas indo e vindo e estava frio. Muito frio. Enrolei mais ainda o corpinho de Otávio para que ele não sofresse ou pegasse um resfriado. Para onde iríamos agora? Dona Cátia ofereceu abrigo até que eu me reerguesse, fiquei um tanto receosa já que eu não a conhecia, mas ela me pediu que encarasse aquilo como uma oportunidade. Nos primeiros meses trabalhei de doméstica em sua casa até que consegui dinheiro suficiente para pagar uma quitinete próximo ao centro. Após algumas semanas liguei para meus pais. Soube que Jeremias realmente havia sido atropelado e por isso perdera os movimentos das pernas. Eles diziam que eu deveria estar lá cuidando do meu marido e quando disse que nunca faria isso eles me chamaram de egoísta. Depois disso não mais nos falamos.
Dona Cátia e Sr. Joaquim cuidaram de mim e do meu filho e me incentivaram a voltar a estudar. Eu tinha apenas vinte e um anos e naquele mesmo ano prestei vestibular conseguindo uma bolsa para o curso de jornalismo em uma das faculdades mais renomadas da cidade. Lá conheci Henrique, que cursava o penúltimo período administração, nos tornamos muito amigos até que percebemos, seis meses após sua formatura, que não poderíamos mais viver separados. Nos casamos e ele me ajudou na educação de Otávio e da nossa filha, Sara, que nascera quando meu filho estava com sete anos. O início foi difícil por causa dos tantos traumas que eu carregava, mas com paciência meu marido me fez entender que nem todos os homens são iguais.
Às vezes ainda tinha sonhos ruins e pesadelos, porém quando voltava do mundo dos sonhos para o real percebia que o inferno já havia passado e que eu não precisava mais ter medo. Ao longo da vida entendi que nem sempre as coisas são tão justas ou justificáveis. Passei a defender com unhas e dentes tantas que sofrem todos os dias por causa de uma sociedade doente, machista e desigual. Eu sabia o que era ceder à pressão e perder a noção dos sonhos por causa das imposições da sociedade. De um resfôlego de vida vi que era possível sair daquela situação, que nunca um caminho é tão longo que não possa ser mudado. Vi minha vida reacender das cinzas e esperava poder fazer da minha história um exemplo para a geração futura. Lutaria todos os dias pelos direitos igualitários e usaria minhas poesias e os tantos livros que escrevia como símbolo de resistência em favor daquelas que dia após dia viessem a ter suas vozes silenciadas. Essas vozes continuariam ressoando enquanto tivéssemos forças para renascer das cinzas. Eu havia experimentado um recomeço. Um renovo. Eu era uma fênix enfim renascida!
Fim.
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